Companheiro meu... Parece-me que remontando esse grande mosaico da minha vida de uma certa forma me ajudou a compreender certos erros, alguns acertos do passado que apontar muito para o que sou hoje. Sim, deixei muito de mim se perder nessa caminhada (sou fruto dessas perdas), mas não descarto um novo homem, um novo Gabriel...
Acredito que agora seja hora de tentar juntar mais algumas peças do meu passado não tão distante assim...
Depois de me ver traído pela minha esposa com meu patrão e a a sua esposa, todos em meu leito naquele que eu tentava repousar e sonhar uma vida futura, me "encontrei perdido" e contrariado comigo mesmo. Saí naquela noite sem perceber que deixara para trás duas almas solitárias e que não mereciam tudo aquilo: Arthur e Dora.
Bebi até altas horas. Embriaguei-me até que percebi que tudo aquilo não tiraria toda aquela dor. Procurei culpar alguem: Alice? Não, ela não tinha culpa, ela simplesmente não tinha culpa, só estava tentando se preencher de um (falso) amor que nunca recebera. Meu patrão? Quem o aproximou da minha família? Foi eu mesmo... Meu trabalho ou compromissos? Meus amigos ou filhos? Ninguém, ninguém... No fim das contas não havia ninguém para culpar, só a mim mesmo. Eu causara toda aquela dor, todo aquele sofrimento e pesar que agora carregava comigo mesmo...
Depois horas no bar voltei para casa. Demorei alguns minutos para girar a chave e destrancar a porta: porque voltar? Poderia viver minha vida como se isso tudo não houvesse acontecido... Eram pensamentos constantes e turbulentos em minha cabeça naquele momento... Mas decidi entrar. Como disse, minhas duas pequenas crianças esperavam por um pai, ainda que ausente, esperavam por ele (controverso, não?).
Passei pelo meu quarto e vi no rosto de Alice um sorriso que há muito tempo não via desenhado naquele rosto de pele macia: ela dormia... Recostei a porta, caminhei até o fim do corredor seguindo aquela luz acesa... Era o quarto do Arthur; ele sempre esquecia a luz acesa e a TV ligada com o seu precioso vídeo game (lembro-me do dia em que compramos juntos...senti-me o seu melhor amigo...). Beijei o seu rosto, passei as mãos nos seus cabelos e, sem desejar aquilo, algumas lágrimas caíram na pequena face do meu cavaleiro Arthur. Antes de sair do quarto, peguei a sua bola de couro e escrevi "Obrigado, meu pequeno cavaleiro, por ter se mostrado tão forte, tão corajoso...sentimentos que me faltaram. Continue forte, mas humilde; resistente, mas maleável; homem, mas criança. Palavras que agora podem não fazer tanto sentido, mas espere; paciência é uma virtude. Deste homem, pai (ausente), amigo (um pouco) que sempre te amou, Gabriel Carvalho". Tantas e quantas lágrimas rolaram dos meus olhos naquele momento; não resisti e um gemido foi emitido de dentro de mim; talvez um soluço de tristeza... Ainda embriagado, agora pelas lágrimas, deixei a bola próximo ao seu travesseiro e parti para o quarto da minha pequena Dora.
Percebi que a porta do quarto da minha boneca se abria enquanto eu me aproximava. Ela estava acordada e me esperando. Seus olhos marejados, como se esperassem o pior, estavam fixados em mim... Sua voz rouca indagou-me "Papai, por que o senhor demorou tanto hoje? Pensei que não voltaria mais para casa. Um homem velho chegou aqui com outra mul..." Eu a interrompi. Explicações para esse fato seriam inúteis. "O papai está aqui minha querida; vamos voltar a dormir; eu vou com você" Sem perguntar mais nada, ela aceitou prontamente e repousou em meus ombros. Quando estava prestes a entrar no mundo de todas as possibilidades eu lhe disse "Filha, o papai precisa ir viajar; a estrada será longa, e talvez eu me perca. Andarei por muitas vezes sozinho, mas tentarei me encontrar. Prometo que algum dia eu voltarei e tentarei te encontrar, mas preciso fazer isso primeiro para mim..." Ela balançou a cabeça, talvez não tenha entendido, talvez não se lembre daquelas palavras, mas, naquele momento, eu estava embebecido de tristeza, saudade e álcool.
Deixei-a na cama e partir para a parte mais difícil: passar pelo meu quarto, ver novamente a Alice e fazer alguma coisa, algo que, em partes, me arrependo até nesse instante. Mas por hoje, querido amigo, ficarei por aqui. Sinto como se tivesse voltado a beijar meus filhos, como se o perfume deles ainda estivesse preso às minhas narinas e como se toda as noites estivessem esperando por mim...
Obrigado Pai, por sempre olhar para os meus pequenos guardas. Obrigado por Teus olhos estarem fixos sobre eles, e acredito que sim. Permita-me mais uma vez ter a chance de dizer tudo isso para eles e sentir seus perfumes novamente... Espero ainda reunir meu pequeno exército novamente, querido escudeiro...

#DramaticModeOn
ResponderExcluirContinue escrevendo.
Beijos
Ana