São Paulo, 7 de junho de 2011

Prometo, meu escudeiro, que continuarei contando minha vida, mas preciso remontar minha história, recontar algumas coisas que vivi, pois elas serão importantes para me reencontrar no meio do caminho e saber onde parei e caí até chegar onde eu cheguei...
Só mais 20 minutos; só precisaria mais esse tempo. Querido amigo, dar-te-ei um conselho: aproveite os pequenos momentos, mesmo que num certo momento você suponha que sejam simples ou passageiro demais para aproveitar.
Em um momento da minha vida não segui esse conselho. Já estava na minha adolescência: as meninas, para mim, começaram tomar outras formas, comecei desejá-las, querer tê-las por perto, ter uma delas para mim. E consegui algumas. Nessa fase alguns amigos começaram a ter valores especiais para mim; comecei a pensar em uma vida passageira e em pessoas que gostaria de levar por toda essa vida efêmera. O Mailson foi uma dessas pessoas.
Viramos amigos em algum momento antes do inverno e logo após a primavera. Fazíamos quase tudo juntos:  íamos e voltávamos juntos do colégio, nadávamos, íamos para as festas juntos, até começamos a namorar nossas meninas quase que na mesma época! Ele esteve por perto quando perdi meu pai. Mailson fora um grande suporte para minha vida: consolou-me, secou minhas lágrimas, trouxe-me muitas alegrias...
Ele também precisou de mim em momentos difíceis. Em uma tarde não muito quente, depois de voltarmos do colégio, seu irmão mais velho chegou em casa. Estava tudo muito bem. Ele almoçou com sua mãe e seu irmão, o qual foi para o quintal e preparava sua arma de chumbinho para caçar pássaros. Mailson fora para o quarto e sua mãe, lavar a louça. Enquanto o irmão mais velho de Mailson arrumava a arma, ele disparou-a sem querer. Fora o suficiente para mudar o rumo daquela família adorável: o disparo fez com que a matriarca daquela casa tomasse um susto e perdesse alguns sentidos. Horas mais tarde fora acordada em um hospital e descobriu que o grande susto comprometesse os movimentos de suas pernas e algumas memórias importantes. Fez com que se esquecesse do meu grande amigo...
Eu fiquei ao seu lado, dei-lhe o maior apoio. Como esquecer de alguém que muda sua vida? Esquecer de uma pessoa maravilhosa que está sempre ao seu lado? Como esquecer que estamos presos numa engrenagem chamada vida e que suas eventualidades são imprevisíveis? Alguns meses depois desse fato, a mãe dele faleceu. O hospital não relatou oficialmente a causa da morte, mas acredito, hoje, que tenha sido negligência. Mais uma vez fiquei ao seu lado... Fiquei?
A vida mais uma vez deu uma reviravolta e minha mãe decidiu que iríamos embora daquela pequena cidade do interior paulista para irmos morar na capital. Tive a semana inteira; tive o dia inteiro; tive toda a noite... Tive muito tempo para falar isso para o Mailson, mas não tive coragem suficiente para despedir-me do meu amigo. Nos primeiros raios de sol do dia 10 de janeiro eu parti com minha mãe e não me despedi dele. Só mais 20 minutos; só precisaria mais esse tempo. Talvez não o aproveitasse corretamente, como o fiz de outras vezes, talvez, sim... 
Depois de tantos anos, ainda sinto a falta daquele sorriso vindo me visitar todas as manhãs para irmos para a escola, sinto falta do ombro que absorveu minhas lágrimas, do coração valente e disposto a lutar, sinto falta do meu amigo... sinto falta do Mailson. A última notícia que tive dele é que continua trabalhando loucamente para sobreviver nessa engrenagem e gira-a como ninguém o faz! Arrependo-me de não ter dado o último abraço e de lhe agradecer por todos aqueles anos que crescemos juntos...
Amado Criador, olha pra esta /tua criatura e perdoe-a por negligenciar um pouco de amor e amizade por aquele que realmente mereceu. Abençoe aquela forte, destemida e valente alma que luta todos os dias para tornar a vida menos penosa. Obrigado por ter conhecido o Mailson... Obrigado por ter Se mostrado a mim, de alguma forma, naqueles olhos que só transmitiram amor... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário