Ainda tento me reencontrar; recompor-me, entender-me... Está sendo uma fase muito difícil para mim entender cada peça no quebra-cabeça, entender seus encaixes, suas formas...
Prefiro assim, encontrar algumas peças que ficaram no fundo de um baú que carrego no meio do meu peito. Algumas peças que me levarão a entender como perdi algumas delas e como ganhei muitas outras.
Ainda quando estava no colégio, por volta dos meus 16 anos conheci alguém que me deu muito suporte na vida: Evandro. Apesar de muito jovem, hoje compreendo que tinha uma cabeça muito além do que muitas cabeças que se diziam pensantes naquele espaço, naquela época.
Passar horas ouvindo suas ideias, muitas vezes sem nexo, me completava; ser ouvido por ele era algo que me fazia descansar em águas tranquilas. Mas o Evandro era muito mal compreendido; ele era praticamente o olho do furacão: era preciso estar em meio à tempestade e entrar no furacão para compreendê-lo. Ele era do tipo de "garoto amante": apegava-se fácil às pessoas, tinha amigos assim como é fácil respirar, mas sentia-se traido constantemente, sentia-se vazio, algo faltava para completá-lo.
Nunca olhei para ele com olhar de pena, mas sempre procurei me inspirar em seu jeito de ser, sempre com os olhos críticos e prontos para filtrá-lo, mas era só continuar os cinco minutos iniciais da conversa e você perceberia um garoto maravilhoso.
Foi numa tarde de outono; estávamos atrasados com as matérias porque os professores fizeram greves constantes no início do ano e ficávamos dois períodos no colégio. Foi numa tarde de outono que eu vi o Evandro em meio a uma roda de garotos: todos riam dele, o ridicularizavam, ele estático, sem dizer nada, nem derramar alguma lágrima, caminhou e saiu dali em direção ao pátio interior do colégio. Decidi o seguir de longe e vi aquele belo e forte castelo de desfazer em lágrimas, e mostrar uma fragilidade tamanha. Deixei-o chorar um pouco; ele precisava. Até que me aproximei.
Sem dizer nada, coloquei minhas mãos em seus ombros, o que o fez chorar muito mais. Agachei-me e o abracei. "Eu o amo, Gabriel, eu o amo... Será difícil ele entender isso?". Sim , o Evandro acabara de se assumir como gay para mim; nesse momento eu entendi porque ridicularizavam-o. "Tudo vai dar certo, você vai ver...". Não sabia o que dizer: como ele poderia confiar em mim a ponto de confessar algo que ninguém sabia até agora; o que eu fiz para merecer toda essa confiança? Não sei, mas agora eu sabia de um grande segredo dele.
"Tudo vai dar certo, você vai ver...": aquelas palavras martelavam em minha cabeça; talvez, mais em mim do que no Evandro. Talvez eu tivesse certo. Ninguém o viu naquela semana. Recebi um bilhete dele e fui me encontrar em frente da biblioteca. Ele não me disse nada; me abraçou e me agradeceu por ser o seu amigo. Virou as costas e caminhou em direção ao pátio central. Passou pelo Marcelo, sem perguntar nada o beijou (um beijo quente, sexy, daqueles que damos umas 3 ou 4 vezes na vida... como se duas almas tivessem acabado de se encontrar...). Bom, ele apanhou: levou um soco no rosto, se levantou e caminhou para o banheiro.
Não o vimos na sala, não o vimos em lugar nenhum... Depois das aulas percebi uma grande movimentação em volta da porta do banheiro masculino. Corri para lá com um pressentimento ruim (e, infelizmente, eu estava certo): Evandro havia se matado com um dos seus cadarços e deixou uma mensagem em uma das portas do banheiro: "Te amei como se não houvesse amanhã, como se não houvesse dor em meu corpo e coração já debilitados pelo desgaste de algo não correspondido; te amei como não houvesse mais ninguém ao nosso redor, somente nós... Te amei até o último segundo dessa vida fútil. Te amei e pela eternidade continuarei te amando... Espero. Amo. Amarei. Esperarei. Evandro.".
Ninguém sabe ao certo porque ele fez aquilo, mas ele se foi. Me pergunto se ele ainda seria meu amigo até hoje, depois de tudo que aconteceu comigo. O que teria acontecido conosco ou com aqueles que estavam ao nosso redor. /depois desse episódio o Marcelo saiu do colégio, muito triste, mas virou aquela página da vida dele...
Querido Pai, onde o Evandro estiver, se possível, diga para ele que ainda existe espaço em meu coração para ele, ainda existe um amigo que se preocupa com ele, quando precisar de um apoio, de um ombro para chorar, um abraço, de um Gabriel, eu estarei aqui... Descanso e fico grato por o ter conhecido. Obrigado por essa oportunidade, pois sei, Senhor, que poucos a tem: conhecer pessoas que ajudam a compreender quem você é, como será e como chegará até lá. Obrigado.

uau, que dramático!
ResponderExcluirvc tem talento pra esse tipo de texto, friend!
continue escrevendo.
beijos
Obrigado, Ana. O objetivo é sempre tocar no fundo da alma... chegar onde poucos conseguem chegar. E quero que você continue sendo tocada com esses textos. Continue acessando e surpreendendo-se!!
ResponderExcluirMuito bom!!!!
ResponderExcluirParabéns Jack, adorei a história
Muito obrigado, Aline. A cada dia o Gabriel mostrará um pouco mais das suas infinitas facetas; continue acessando e surpreendendo-se!
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