São Paulo, 27 de Janeiro de 2011

Tenho visto tanta podridão no meio daqueles que se dizem saberem mais, serem mais... elevam-se mais.
Hoje puxava a minha carroça aqui perto de onde estou passando esses dias. O Alan foi comigo e me ajudava a recolher alguns materiais recicláveis.  Estávamos alegres, felizes e cantando.
Foi nesse período que eu vi algo nojento, repugnante. O Alan tropeçou numa pedra e aproveitou para apanhar uma latinha que estava perto. Caimos na risada elevantei a minha cabeça e vi que alguns riam também, mas não porque o Alan tropeçou e quase caiu; riam por outro motivo.
Atrás de nós passava um rapaz que parte do seu rosto era deficiente: não havia  maxilar e parte de sua cabeça era enrugada e com um formato meio côncavo. Olhei para ele como se olhasse para o meu filho, mas o meu repudio foi ver que alguns riam dele, outros ficaram pasmos até ele passar por eles.
Não estávamos diante de um animal, nem de um outro ser diferente de nós. Estávamos diante de um ser humano lindo, com características fisiológicas diferentes, sim, que podiam até o limitar de alguma atividade, mas era o mesmo que nós, o mesmo que eu, caro amigo.
Será que não estamos preparados para algo desse tipo? Em ver o outro sem preconceito, sem repúdio, sem nojo, sem limitá-lo ou rejeitá-lo?
Vi aquele homem chorar, ainda andando. Chorava e andava de cabeça baixa, talvez tentando  esconder o que o separava de uma grande e desiludida sociedade, não por ele, mas pela grande engrenagem enferrujada, porosa e emperrada que chamam de civilização.
Larguei a carroça com o Alan e corri em direção àquele rapaz. Não lhe perguntei seu nome ou dei um "tapinha" em seus ombros para, quem sabe, soar como "pena"; puxei seu braço e o abracei. Num gesto repentino, aquele rapaz me apertou com um abraço e pude sentir suas lágrimas quentes escorrerem em meus ombros... Passei as mãos sobre seu rosto e lhe disse que ele me fazia lembrar muito do meu filho. Secou suas lágrimas e seguiu seu caminho.
Seu nome não sei. Mas para um abraço é preciso um nome? É preciso de prufundidade num relacionamento para que haja expressão de sentimentos? Acredito que não. Voltamos para casa, eu e o Alan, impactados com toda aquela cena.
Pai, ajuda-nos. Ajuda a essa grande engrenagem, que estou envolvido,  a girar com fluidez, a girar produzindo algo bom, não com essa hiprocresia e repudio que impera. Me ajuda a olhar para o outro assim como Tu vês. Sou tua criação. O outro também o é. Faz-nos ver isso. Obrigado.

Um comentário:

  1. Por vezes, o pré conceito define pessoas como Gabriel e Alan como inferiores, pouco humanas, mas Gabriel mostra o contrário com uma atitude simples e valiosa ou apenas incomum: menos cega, egocêntrica, desrespeitosa.

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