Ainda me lembro daquele dia que fui muito cedo para o trabalho. Foi depois que descobri que era traído pela minha esposa e meu patrão. Quão longo fora aquele dia, muitos casos não consegui resolver, muitos processos engavetei naquele dia. Era quinta-feira.
Sempre fui rude, áspero e calado. Por que mudaria logo nesse dia? Tentei. Passei a noite num hotel e fui direto para o trabalho. Para mim a minha expressão era a mesma, não mudara. Mas duas garotas que trabalhavam ao lado do meu escritório repararam em mim, mais tarde descobri que elas sempre me observaram.
A caneta dançava entre meus dedos, minha mente voava pelo tempo e espaço zero. Me sentia simplesmente vazio. Elas chegaram como raios tímidos no horizonte. Meu olhar atravessou os delas. Superaram, mas eu me rendi: um simples sorriso esboçou em meu plálido rosto. Me ofereceram um café que se prontificaram em buscar e aceitei.
Seus nomes eram um grande mistério, assim como seu ato de me ajudar e querer descobrir o que me deixara abatido naquela manhã. Ana Paula e Luciana. Nunca mais esquecerie seus rostos. Sentaram-se como anjos na minha frente, cruzaram suas pernas e recostaram-se. Perguntei por que estavam em minha sala, Ana Paula com sua voz doce pediu para ser franco com ela, que mesmo sem trocar nenhuma palavra, ela me conhecia e sabia que algo estava errado. Luciana com sua risada simples e tentando-a esconder atrás de suas mãos disse para confiar nelas.
Assim o fiz. Mas não me abri por completo. “Acabara de conhecê-las” e não tinha o poder nem o direito de descarregar sobre elas todas as minhas aflições sobre elas. Mas contei-as que andava muito triste, vazio. Todos os casos que eu defendia eram bem sucedidos, mas eu era frustrado. Mais uma vez, as lágrimas vieram me visitar. Luciana se levantou e me convidou a fazer o mesmo, num gesto simples me abraçou; sem receio ou temor abraçou-me, enquanto Ana Paula secava minhas lágrimas. Fique estarrecido; não sentia todo aquele carinho há algum tempo. Não havia atração; havia amizade, um sentimento represado dentro de mim.
O dia se arrastou pela selva de pedra e procurou seu descanso. Fui para casa, ainda receoso do que poderia encontrar. E como eu olharia para meus filhos, e o que diria para eles? Ode passara a noite? Por que não voltei para casa? Tantas perguntas brotaram em minha cabeça enquanto dirigia demoradamente em direção à minha casa. Estacionei o carro e entrei em casa. O barulho das chaves ressoaram nos ouvidos dos meus filhos, os quais corriam em minha direção, enquanto minha esposa se posicionava no batente da porta com os braços cruzados, com um belo sorriso em seus lábios. O ar de dentro da minha casa me dizia que nada ocorrera, mas eu sabia que era um mero engano. Fechei a porta, abracei meus filhos, beijei minha esposa e subi as escadas. Nesse momento meu coração sangrou, mas sorri.
Mas até quando sorrir? Até quando disfarçar? Essas perguntas não perduraram em minha mente. Era momento de tomar algum rumo em minha vida.
Sabe, Senhor, lembrar de tudo isso, mas não é mais tão pesado. Não dói tanto quanto doía quando aconteceu. Acho que tantos novos sentimentos vieram depois que descobri que o Seu amor já fora derramado em meu coração. Hoje prefiro deixar que esse amor flua como rios e alcance os mais distantes desertos. Que algum dia alcance novamente as três árvores que plantei, mas que deixei para trás...

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