São Paulo, 21 de Janeiro de 2011

Se preferir continuar esse grande inventário da minha vida prefiro continuar de um ponto que ficou esquecido durante muitos anos da minha vida, mas que hoje salientam-se em meu coração: Arthur e Dora, meus filhos. Eles eram crianças especiais e adoráveis. Filhos perfeitos.
Arthur era um excelente jogador de futebol e fazia desenhos como ninguém. Aos seus 10 anos foi selecionado para entrar no Santos, um time excelente de São Paulo. Jogou no time mirim por dois anos e chegou sempre aos lugares mais altos por seus devidos méritos. Como amava passar meus dimitunos segundos ao seu lado. Na minha mesa do escritória havia uma foto dele; como vou me esquecer daquela foto? O sorriso mais lindo, mais irradiante, mais inspirator de todos. Todas as noites beijava o meu caçula: já estava na cama, adormecido, mas era acalentador o som da sua respiração. Como eu te amei, filho...
A Dora era uma menina espetacular! Estava sempre querendo saber como fazer contas, como eu defendia todos aqueles casos e ganhava, como manter seus pequenos castelos de pé... Sempre curiosa, mas focada no alto, em alcançar o topo e se manter nele. Diferente do Arthut, Dora gostava de escrever. Escrevia seus sonhos, seus pequenos e ousados projetos, seus objetivos para aquela semana e pendurava na porta do seu guarda-roupas uma pequena planilha, que a ajudei a desenhar, com suas finanças.

Mas não dei a antenção que eles tanto precisavam. Lembro-me de muitas vezes ter de visitar a Dora no hospital por complicações respiratórias. Na vez em que o Arthur fraturou um dos dedos jogando bola não pude estar por perto para o abraçar e dizer que aquela dor iria passar. Perdoem-me, filhos queridos. Hoje a companhia das lágrimas e da saudade é constante, mas a lembrança de seus rostos não saem da minha cabeça e uma tímida tentativa de descobrir como são seus rostos hoje. Se ainda pudesse ter uma outra chance, uma segunda chance...
Não há justificativas boas o suficiente para cubrir todo esse vazio e ausência que compus na vida de vocês. Ainda mais depois de tê-los abandonado numa vida miserável, não financeiramente, mas numa vida infeliz junto à sua mãe. Mas não consigo terminar agora, querido amigo. Tudo isso foi uma reabertura nas minhas feridas e culpas...
Tu és o Médico dos médicos, Senhor, cura o meu interior, minha lama, minhas emoções. Cuida dos meus filhos onde eles estiverem. Perdoe-me dos erros cometidos, mas olhe por eles e ilumine um caminho de paz e cheio de preciosidades que somente Tu podes dar. Por favor, faça isso. 

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