As vezes me pergunto se estou totalmente sozinho; se estou numa situação tão ruim; se sofro tanto assim. No fim do dia a resposta para todas essas perguntas sempre é NÃO.
Aqui debaixo do Viaduto do Chá tem muitas pessoas que me conhecem. Muitos homens e mulheres muito bem vividos que possuem histórias fantásticas, histórias que ilustram e colorem o negro céu noturno.
Tenho sentido falta de alguns deles, principalmente do seu Manuel e da dona Ângela: um casal amável, mas que estavam doentes há muito tempo. O frio, sem a devida proteção, se torna um duro inimigo. Eles amanheceram abraçados e frios na semana passada.
Nessas horas o albergue seria um bom lugar, mas muitos de nós não vamos; eu, particularmente, sempre acho que tem alguém numa situação mais necessitada do que a mim, por isso acabo não indo.O seu Manuel e a dona Ângela poderiam ter vivido mais, quem sabe, se estivessem num lugar como esse.
Minha situação não deve ser tão ruim assim. Ainda sou um jovem senhor, apesar de todo esforço do dia a dia posso caminhar, respirar sem muita dificuldade e ainda consigo alguns trocados ao longo do dia para não morrer de fome. O contrário para muitas pessoas aqui em baixo: alguns passam fome o dia inteiro, outros ficam aqui pois a doença já os tomaram a ponto de não poderem caminhar. Quando consigo, divido meu pão ou bolachas que ganho, ou conto alguma história para acalentar o sofrimento.
Mais uma vez, obrigado Senhor, por eu estar aqui, por estar vivo, por ter forças por ter passado por tudo e ainda estar...aqui. E me ensina a ter o amor, o mínimo que seja, que havia no seu Manuel e na dona Ângela. Obrigado
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