São Paulo, 28 de Dezembro de 2010

Viver é um grande e vistoso mistério!
Hoje voltei às ruas com minha carroça, querido amigo. E como aprendo olhando para tudo que paira diante dos meus olhos. Pessoas desesperadas com um curioso objeto presos aos seus braços. Outras se desligavam desse mundo ao tocar um pequeno aparelho em seus bolsos ou bolsas. Alguns se perdiam olhando para os faróis enquanto aceleravam seus carros.
Muitos, se não todos, embebeciam-se em si mesmos e se esqueciam de algo mais precioso, mais valioso: o tempo. Não param para cuidar de suas famílias, de suas casas, de suas alimentações... de si mesmos. Enquanto isso o tempo passa e se perde num grande vazio; um infinito sem volta, sem circunferência.
Você pode até se perguntar quem sou eu para dizer isso, ou para tentar ensinar algo desse tipo. Sim, passei muito tempo distante da minha família cuidando de tantas outras coisas que poderia muito bem cuidar mais tarde e passar mais 5 ou 10 minutos com os meus.
Meu relacionamento com Alice foi se esfriando. A cada dia a sentia distante de mim, sentia um frio imenso entre nós. Como disse, chegava tarde em casa. Não mais prazer em estar ao lado dela; antes a amava, memo que escondido, mas a amava. Levava flores, saíamos todos os fins de semana para comermos em algum lugar diferente. Nossa lua de mel... Ah, nossa lua de mel! Foram dias maravilhosos em Paris. Não foi maravilhoso pelo pelo lugar, pela Cidade Luz, mas por estar ao lado de quem realmente importava.
Mas tudo aquilo, todo aquele amor não regado por mim foi murchando, foi morrendo. 
Cheguei um dia muito tarde do trabalho. Naquela semana meus filhos estavam na casa dos meus pais e Alice chegaria da igreja a tarde. Como fazia sempre, esquentava meu jantar e coloava na mesa (mesmo que quando eu chegasse estaria frio).
Vi que a luz do nosso quarto estava acesa, coisa estranha. Ouvi a voz de alice envolta numa nuvem de prazer. Logo após outra não muito intensa. Temi. Tremi. Repentinamente ouvi uma terceira voz. Engoli o medo cálido e frio. Parecia que eu flutuava sobre o assoalho; não emiti som algum. Abri uma brecha na porta entreaberta, discretamente. Tento tirar essa cena todos os dias da minha mente: Alice, Marcos, meu patrão, e Adriana, sua esposa, todos no meu leito emanados pelo prazer do sexo. 
Não a culpei. Não a julgo por ter feito aquilo, porque a culpa fora minha. Mas meu coração ficou partido, sangrava. Entrei num processo de hemorragia interna, mas em meu espírito. Saí com a mesma leveza e a mesma frieza que entrei em casa. Só voltei para casa na manhã seguinte, pois não tinha forças em mim para dormir em casa. Preferi voltar para onde passava minhas horas intermináveis: meu trabalho.
Hoje percebo que o tempo que se evaporou no infinito e eterno espaço poderia ser melhor empregado se eu pudesse aplicá-lo à minha família.  Hoje sei que realmente a amei, mas, talvez,  seja tarde demais.
Desculpe as lágrimas que derramei em você hoje, querido amigo, mas foi inevitável para mim... Obrigado, mesmo assim, Senhor, porque mesmo na dor eu aprendi que existem valores inestimáveis, objetos não materiais que se enferrujam, se esfriam e, alguns, até morrem. 

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